Infância, de Paulo Rema

10 anos de idade
no cimento frio, no tempo
em que não havia frio
chora, a camioneta passa
os calções pretos, feitos feios,
as raparigas fogem
não falam com ele
no entanto, tem um dom
aprisionado nas pontas dos seus dedos
da mão mais esquerda
toca para dentro do exterior
levanta-se, sem amigos,
desenha idiotices, amarrota a alma em fase desacelerada de crescimento
contínua forma de sofrer
aparecem abutre
disfarçados de pardais
paixões que duram um dia
amores que se esquecem numa vida
os professores ensinam
numa língua diferente
ele aprende a sonhar
fora das janelas da sala, existe
um novo tipo, a que chamam luz
na hora de ir para a
casa que visita, estranha, treme
quer voltar
à solidão do cimento frio e duro
no canto do edifício amarelo, sujo
ou cor de lágrimas de criança
tem um dom, o rapaz
quer ser o Tempo, para não
hesitar
e poder voltar atrás.
Text by © Paulo Miguel Rema – Portuguese Version

Photo: Paulo M. Rema

[wp_ad_camp_1]

Repetição de alguns dias

Quando o sol nascer
Vestirei o melhor
Fato

O único que me resta da humanidade
Dos dias
E arranjarei um cavalo
Mecânico sem sentimentos
Bem oleado nas juntas
E resistente ao meu-mau tempo
Depois,
De estômago seco
Forrarei as mãos com geada
Atarei um vinco
Ao traço grosseiro do horizonte
Arranjo a gravata
Coço-me do dia anterior – os braços
Da apanha do figo
Componho a secretária
Desarrumo a papelada
Para me esconder melhor
E espero pelo fim do dia
Que ainda não começou.

Text by © Paulo Miguel Rema – Portuguese Version

Photo: Paulo M. Rema

[wp_ad_camp_1]