Infância, de Paulo Rema

10 anos de idade
no cimento frio, no tempo
em que não havia frio
chora, a camioneta passa
os calções pretos, feitos feios,
as raparigas fogem
não falam com ele
no entanto, tem um dom
aprisionado nas pontas dos seus dedos
da mão mais esquerda
toca para dentro do exterior
levanta-se, sem amigos,
desenha idiotices, amarrota a alma em fase desacelerada de crescimento
contínua forma de sofrer
aparecem abutre
disfarçados de pardais
paixões que duram um dia
amores que se esquecem numa vida
os professores ensinam
numa língua diferente
ele aprende a sonhar
fora das janelas da sala, existe
um novo tipo, a que chamam luz
na hora de ir para a
casa que visita, estranha, treme
quer voltar
à solidão do cimento frio e duro
no canto do edifício amarelo, sujo
ou cor de lágrimas de criança
tem um dom, o rapaz
quer ser o Tempo, para não
hesitar
e poder voltar atrás.
Text by © Paulo Miguel Rema – Portuguese Version

Photo: Paulo M. Rema

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Repetição de alguns dias

Quando o sol nascer
Vestirei o melhor
Fato

O único que me resta da humanidade
Dos dias
E arranjarei um cavalo
Mecânico sem sentimentos
Bem oleado nas juntas
E resistente ao meu-mau tempo
Depois,
De estômago seco
Forrarei as mãos com geada
Atarei um vinco
Ao traço grosseiro do horizonte
Arranjo a gravata
Coço-me do dia anterior – os braços
Da apanha do figo
Componho a secretária
Desarrumo a papelada
Para me esconder melhor
E espero pelo fim do dia
Que ainda não começou.

Text by © Paulo Miguel Rema – Portuguese Version

Photo: Paulo M. Rema

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Cemitério de Elefantes

Sempre me questionei para onde iriam as pessoas que desapareciam da minha vida. Não me estou a referir aos que partem para sempre mas sim dos que deixei de ouvir falar.
Nasci e criei-me numa pequena aldeia perto da Serra da Estrela, na Cova da Beira, e toda essa minha vida decorreu numa pacatez impoluta.
Conhecia quase toda a gente com quem me cruzava, e todos os estranhos que encontrava me pareciam isso, estranhos. E perguntava-me também de onde viriam. Mas como apareciam desapareciam eu deixava de pensar nisso.
O mundo inteiro era-me desconhecido, tal o isolamento a que o meu mundo estava sujeito.
Só anos mais tarde conheci o básico, como electricidade, rádio, televisão, estradas alcatroadas e telefone. Luxos aos quais rapidamente intitulei de necessidades.
A minha vida e a minha visão do mundo alargou-se, pelo menos um pouco. Já me deslocava a outras localidades e aprendera a conduzir, pelo menos um motociclo.
Os namoros vieram, naturalmente. Não eram luxos, eram necessidades naturais e bem humanas. Casei. Nem sei porquê, realmente.
Para a maioria dos homens da minha geração, assim como para os mais antigos e lá para as minhas bandas, o casamento não era o que se via e ouvia na televisão. Era diferente.
A minha mulher tratava de tudo em casa e de mim, e eu provia do resto. E assim ela deixava-me sossegado no convívio na tasca do Zé, à beira da estrada municipal. Só tinha de estar em casa para a janta. O que poucas vezes acontecia.
Vocês sabem, um homem trabalha muito e precisa de estar com os amigos. E esses não têm problemas em chegar a casa quando querem. E nem precisam de dar satisfações.
Eu queria ter um casamento como o dos meus amigos, mas a minha mulher era teimosa. Já sabia que a mãe dela era assim, e julguei que a filha fosse diferente. Não era.
Os amuos eram frequentes, e os meus gritos e ameaças também. A coisa não correu bem. Quase desde o início. Devolvi-a à precedência. Tinha defeito.
Que se lixe. Mulheres há muitas, e de certeza bem menos chatas que esta. E nem precisei de esperar muito.
Fui a Espanha com amigos. Salamanca ali tão perto, cheia de guapas que adoram portugueses da Serra. Não devia ter ido, sei-o agora.
Encontrei uma rapariga que me devolveu o sorriso. Não o devia ter feito, ela sabe-o agora.
Era italiana e estava a tirar um curso sobre uma coisa esquisita. Rasmus ou parecido. Encantámo-nos um ao outro. Não sabíamos porquê mas há coisas que se explicam e outras que não.
Ia ter com ela todos os fins-de-semana, e estávamos perdidos. E nem o sabíamos.
Quando acabou o tal curso, do qual nunca soube o nome, pediu-me para ir com ela, para uma
cidadezinha a sul de Roma. Que podia eu fazer? E foi o que eu fiz.
Embarcamos em Madrid para Roma, e gostei de andar de avião. A família dela estava à espera dela, e apenas dela. Senti-me a mais, mas ela lutou e conseguiu que me aceitassem. Fiquei feliz.
Descobri o erro mais tarde, mas pouco mais tarde. As nossas diferenças eram grandes. Idade, cultura, educação, perspectivas de vida. Há sempre uma hora em que tudo conta. Muito.
Trocou-me rapidamente por alguém que a entendesse de corpo e alma, e não apenas de corpo.
Fui fazendo de tudo, e fui ficando por uns tempos. Mas necessitava de ir para outro lado. E voltar não era opção.
Andei para sul, e as vistas eram boas. O trabalho rural não me assusta e era disso que sobrevivia. A custo.
Cheguei a uma aldeia onde a única tarefa que podia fazer era pastar gado nas colinas. E foi o que fiz.
Tão longe e tão perto. Lá estava a minha nova Serra para onde levava o gado, todos os dias.
Tenho Facebook. Toda a gente o tem. Quem não tem não existe. Ouvi dizer.
Desta forma consegui contactar muitos amigos de infância. Uns estão bem, e outros mais ou menos. Sinto-lhes a falta. E sinto que não sentem a minha falta.
Sinto que estou no fim da linha em muitas coisas. E que talvez nunca mais saia daqui. Com pena, pois descobri que há tanto mundo. E eu aqui.
Descobri agora para onde foram as pessoas que desapareceram da minha vida. Para o cemitério dos elefantes….

 Text by Xabi Verde – Portuguese Version

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